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21 de Março: Dia Internacional contra a Discriminação Racial – Uma reflexão a partir do Serviço Social e da história da população negra

Representação do combate à discriminação racial e promoção da igualdade no Brasil

Edilson da Silva Almeida
Assistente social do Seconci-SP

O racismo constitui uma das formas mais persistentes de desigualdade social na história da humanidade. No Brasil, suas raízes estão profundamente ligadas ao período colonial e ao sistema escravocrata, que estruturou relações sociais baseadas na exploração e na hierarquização racial. Nesse contexto, o dia 21 de março foi instituído como o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, representando um importante momento de reflexão e mobilização social no enfrentamento do racismo.

A data foi estabelecida pela Organização das Nações Unidas em memória do massacre ocorrido em 1960 na cidade de Sharpeville, na África do Sul, quando manifestantes negros que protestavam contra as leis do regime de Apartheid foram violentamente reprimidos pela polícia. O episódio resultou na morte de dezenas de pessoas e se tornou um símbolo internacional da luta contra a segregação racial e pela garantia dos direitos humanos.

A formação da sociedade brasileira está profundamente marcada pelo processo de escravidão. Durante mais de três séculos, milhões de africanos foram trazidos de forma forçada para o Brasil, sendo submetidos a condições extremamente precárias de trabalho e vida. Mesmo após a abolição da escravidão, em 1888, a população negra não recebeu políticas públicas capazes de garantir sua inserção plena na sociedade, permanecendo em condições de marginalização social e econômica.

O racismo não deve ser compreendido apenas como atitudes individuais de preconceito, mas como um fenômeno estrutural que organiza as relações sociais e institucionais. Nesse sentido, o racismo estrutural se manifesta em diversas áreas da sociedade, como no acesso desigual à educação, à saúde, ao mercado de trabalho e à moradia.

Dados de pesquisas recentes indicam que grande parte da população negra brasileira já vivenciou situações de discriminação racial ao longo da vida. Essas manifestações podem ocorrer em diferentes espaços sociais, incluindo ambientes de trabalho, instituições de ensino e espaços públicos. Além disso, casos recentes de discriminação racial amplamente divulgados pela mídia reforçam que o racismo ainda se faz presente na sociedade contemporânea.

Entre os exemplos recentes estão denúncias de ofensas racistas em ambientes públicos, situações de discriminação no ambiente escolar e casos de injúria racial no ambiente de trabalho. Esses episódios demonstram que, apesar dos avanços legislativos e das políticas públicas voltadas para a promoção da igualdade racial, ainda há um longo caminho a ser percorrido na construção de uma sociedade verdadeiramente igualitária. Diante disso, mudanças institucionais têm tentado minimizar a “dívida social” deixada à população negra. Foram criadas as leis de cotas em universidades, empresas precisaram se rever e abriram espaço para essa população, como ficou evidente nos canais de televisão onde poucos negros tinham visibilidade em suas programações.

Nesse cenário, o Serviço Social possui um papel fundamental no enfrentamento das desigualdades raciais. A profissão está fundamentada em princípios éticos que defendem a liberdade, a justiça social, a equidade e o respeito à diversidade.

Os assistentes sociais atuam em diferentes políticas públicas, como saúde, assistência social, educação e habitação, estando em contato direto com populações que frequentemente são afetadas pelas desigualdades raciais. Dessa forma, torna-se essencial que a prática profissional esteja comprometida com uma análise crítica da realidade social e com a promoção de ações que combatam o racismo e promovam a equidade.

Além disso, é importante reconhecer que a história da população negra no Brasil também é marcada por processos de resistência e luta por direitos. Os quilombos, por exemplo, representaram importantes formas de organização e resistência durante o período escravocrata. Na contemporaneidade, os movimentos negros têm desempenhado um papel fundamental na denúncia das desigualdades raciais e na conquista de políticas públicas voltadas para a promoção da igualdade racial.

Podemos dizer que compreender a história da população negra é essencial para desconstruir narrativas que invisibilizam sua contribuição para a formação da sociedade brasileira. A cultura, a religiosidade, a música, a culinária e diversas outras expressões culturais afro-brasileiras são parte fundamental da identidade nacional.

O Dia Internacional contra a Discriminação Racial representa um importante momento de reflexão sobre as desigualdades raciais presentes na sociedade e sobre a necessidade de fortalecer ações voltadas para a promoção da igualdade. No contexto brasileiro, essa discussão é ainda mais relevante devido à herança histórica da escravidão e às persistentes desigualdades raciais.

A partir da perspectiva do Serviço Social, torna-se fundamental reconhecer o racismo como uma expressão da questão social e desenvolver práticas profissionais comprometidas com a defesa dos direitos humanos e com a promoção da justiça social. Nesse sentido, a atuação crítica dos assistentes sociais pode contribuir para a construção de políticas públicas mais inclusivas e para o fortalecimento da luta contra todas as formas de discriminação.

Portanto, refletir sobre o 21 de março é também reconhecer a importância da história e da resistência da população negra, valorizando suas contribuições para a sociedade e reafirmando o compromisso coletivo com a construção de uma sociedade mais justa, democrática e igualitária.

  

Referências

ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.

BRASIL. Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Brasília: Presidência da República, 1989.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2022.

IAMAMOTO, Marilda Villela. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. São Paulo: Cortez, 2015.

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis: Vozes, 2004.

ONU – Organização das Nações Unidas. Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial. Disponível em: https://www.un.org. Acesso em: 8 mar. 2026.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A difícil democracia: reinventar as esquerdas. São Paulo: Boitempo, 2016.

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