Nathalia Xavier de Almeida
Supervisora de Farmácia do Seconci-SP
No ensejo do Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, é importante destacar que o cuidado farmacêutico no processo de hormonização (tratamento por hormônios) de pessoas transexuais e travestis é uma prática clínica, ética e centrada na pessoa, que vai muito além da simples dispensação de medicamentos. Trata-se de uma atuação fundamental para garantir segurança, adesão ao tratamento e promoção da equidade em saúde.
Esse cuidado se inicia pelo acolhimento qualificado, com respeito à identidade de gênero, ao nome social e às singularidades de cada indivíduo. O farmacêutico exerce um papel essencial na construção de um ambiente seguro e livre de julgamentos, favorecendo o vínculo com o serviço de saúde e fortalecendo a confiança no cuidado oferecido.
No contexto da hormonização, o farmacêutico atua no acompanhamento farmacoterapêutico, orientando sobre o uso correto dos hormônios, posologia, vias de administração, tempo esperado para os efeitos e possíveis reações adversas. Também é sua responsabilidade identificar e prevenir riscos importantes, como a automedicação, o uso de doses inadequadas e as interações medicamentosas (situações ainda frequentes devido às barreiras de acesso aos serviços de saúde).
Outro aspecto relevante dessa atuação é o monitoramento contínuo da segurança do tratamento. Em articulação com a equipe multiprofissional, o farmacêutico contribui para a identificação precoce de sinais de alerta e para a realização de intervenções oportunas, promovendo um cuidado mais seguro e integrado.
Automedicação aumenta os riscos à saúde
Um ponto que merece atenção especial é a automedicação no processo de hormonização. Isso ocorre, em grande parte, porque alguns hormônios podem ser adquiridos sem a obrigatoriedade de retenção de receita, o que facilita o acesso, mas também aumenta significativamente os riscos à saúde quando não há acompanhamento profissional.
O uso de hormônios sem orientação adequada pode causar efeitos adversos importantes, como alterações cardiovasculares, aumento do risco de trombose, sobrecarga hepática, alterações metabólicas, desregulação hormonal e impactos na saúde mental. Além disso, o uso de doses inadequadas ou associações incorretas de medicamentos pode comprometer tanto a segurança quanto a eficácia do tratamento.
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Nesse cenário, o farmacêutico tem papel fundamental na prevenção da automedicação, atuando na orientação, no esclarecimento de riscos e no reforço da importância do acompanhamento contínuo por profissionais de saúde. Dessa forma, o cuidado farmacêutico contribui para a redução de danos, para a continuidade do cuidado e para a consolidação de uma prática humanizada, segura e baseada em boas práticas profissionais.









